Thursday, April 29, 2010

Geografia Econômica em destaque 2

http://not.economia.terra.com.br/noticias/noticia.aspx?idNoticia=201004291203_EFE_78928102

Kenneth Arrow ou Robert Lucas (não lembro qual dos dois) disse que em uma economia que não considera os crescimentos crescentes de escala, não faz sentido pensar na geração espontânea de metrópoles (já que não haveria motivos para a concentração geográfica de atividades econômicas).

Reportagem interessante. Interessante também saber a teoria econômica subjacente. Escrevi sobre isso alguns posts atrás.

Saturday, April 24, 2010

União Econômica


Isso eu não li em nenhum livro sobre integração de mercados entre países. Li recentemente em colunas e comentários sobre a situação espanhola, portuguesa e grega em particular no contexto da União Européia. Tem lógica pensar que há uma tendência à convergência de preços entre os países, seja pela queda de barreiras ao comércio, seja pela redução de custos de transporte.

Mas vejamos os dados: A convergência existe, sim. O gráfico apresentado trabalha com índices de preços mensais harmonizados gerais para cada um dos países, sendo 2005 a base representativa do índice 100. Perceba-se a velocidade que evoluem os índices de Portugal e Espanha em comparação com Alemanha e França! Há um catch-up em 2005, obviamente por uma questão metodológica: todos convergem a 100 neste que é o período base. O que interessa então são os comportamentos de preços antes e depois deste período: reitero - perceba-se a aceleração inflacionária nos países de menor índice de desenvolvimento!!!

Na União Européia existe uma política de convergência econômica entre os estados membros (na verdade uma série de medidas políticas), mas há que se ter cuidado com a criação de bolhas inflacionárias. Muito cuidado, aliás. Uma análise com maior profundidade, trabalhando-se com setores amplos da economia (serviços, construção, manufaturas) pode revelar resultados ainda mais interessantes.

Wednesday, April 21, 2010

Infraestrutura

http://economia.terra.com.br/noticias/noticia.aspx?idNoticia=201004210004_INV_78909133

Investimentos como estes sao fundamentais, nao somente para o bem-estar da populaçao, mas para as consequencias econômicas que seguem. Estive em Portugal este passado final de semana e é assombroso como um país que faz parte daqueles com mais carência em infraestrutura da Uniao Européia possui redes de trem interligando todo o país e rede de metrô na "grande cidade" do Porto (500 mil habitantes). E estou me referindo somente a uma rede eficiente de transportes.

Mas uma das resultantes de uma mera rede de transportes eficiente e de custo acessível é a possibilidade de algum nível de desconcentraçao geográfica da produçao e da própria moradia dos habitantes - nos EUA é tao comum o commuting, que leva a uma ocupaçao de uma área geográfica maior e com menor concentraçao demográfica. A consequencia disso sao áreas nao saturadas (ou com menor tendência de saturaçao) e a possibilidade de pólos múltiplos de desenvolvimento, em oposiçao à extrema localizaçao encontrada no Brasil (ainda que haja indícios de uma reduçao deste comportamento).

Update: Em tempo - a construçao da usina de Belo Monte seria uma grande jogada em termos de geraçao energética para o país, nao fosse na extrema contramao da consciencia sócio-ambiental que se propaga no mundo. Nao sou a favor deste progresso a qualquer custo, ainda mais quando há uma série de alternativas a serem consideradas. Mas é evidente que nao é o interesse econômico comum e a ética que regem os princípios em um país dominado por um bando de políticos defensores somente dos seus interesses próprios. Pena.

Monday, April 19, 2010

Sobre vulcões

Com a colaboração dos grandes mestres Affonso Dalla Libera, Rodrigo Debus e Gustavo Cascardi.

" Como entender a realidade, ou ao menos tentar, sem aceitar que a capacidade cognitiva humana é incapaz de abarcar todos os elementos que atuam sobre qualquer fenômeno que ocorra de forma aparentemente isolada? E que fique claro, aparentemente, porque há uma interligação entre todo e qualquer evento, ou, como expõe Prigogine (1996, p. 26) “o acontecimento mais insignificante pode mudar o rumo da história”.
Para fazer uma analogia ao entendimento da ciência, a própria estrutura de relações de consciência do cérebro humano é complexa, formando um paralelo com os sistemas com os quais o ser está lidando (TONONI & EDELMAN, 1998).
Mas a doutrina de estudos que impera na sociedade humana é a da divisão cartesiana e disciplinar, do isolamento dos objetos para um entendimento dito analítico. É comum usar uma lógica reducionista e repetível, de cunho evidentemente analítico, que facilita a abordagem de assuntos com inúmeras facetas, impossibilitando, porém, uma visão compreensiva da realidade. Esta é a forma que se dá a educação escolar, através de exposição separada de disciplinas, sem que sejam realizadas conexões adequadas entre elas. Quais as ligações, por exemplo, que são dadas no ensino fundamental entre história, biologia e geografia? Ainda assim, se se pensar de forma integrada, é impossível dissociar as abordagens interdisciplinares que explicam a realidade. Outrossim, a didática atual busca mais professar verdades universais do que alcançar o entendimento, ainda que incipiente, da realidade complexa.
Diante do exposto, este artigo busca discutir como o clima se apresenta, relativamente ao mercado de commodities, sob a ótica da complexidade, da visão sistêmica e holística".

Escrevemos isto originalmente abordando a influência do clima no ambiente do agronegócio. Mas é uma idéia que faz sentido. Eu adoto via de regra uma visão extremamente reducionista e prática de abordar problemas científicos, um positivista puro (não fosse economista). Mas lendo que a erupção do vulcão islandês de impronunciável nome teve efeitos econômicos tão desastrosos quanto o 11 de setembro, têm-se uma idéia de como o incalculável é relevante.

E por falar em 11 de setembro, percebe-se que os bancos americanos estão se preparando arduamente para reconstruir um sistema tão frágil como o que recentemente faliu. Qual erupção causa mais estragos?


Referências

PRIGOGINE, Ilya. As leis do caos. São Paulo: Editora Unesp, 2002.

TONONI, Giulio & EDELMAN, Gerald M. Consciousness and Complexity. Science Magazine, Washington DC, EUA, v. 282, p. 1846-51, dezembro, 1998.

Wednesday, April 14, 2010

Desigualdade de renda II


É notório que o Brasil é um país com graves problemas de concentração de riqueza. Mas, ei, boas notícias! Em uma análise de 1982 a 2008 temos uma redução consistente do coeficiente de Gini para o país a partir do ano 1998. Ainda que seja baixa, é contínua e indica alguns avanços (avanços pré-Lula, aliás).

Mas pra não deixar nosso presidente sem crédito, além da melhora deste indicador (que é ainda está em um patamar muito ruim) ter se acelerado durante seu governo, o número absoluto de lares pobres e indigentes foi reduzido sensivelmente.

Update: crédito dos dados ao ipeadata.gov.br - mas nao merecia, tornou a obtençao desta série um verdadeiro porre.

Update: A escala do gráfico não deve permitir otimismos extremos: o Brasil ainda tem um alto coeficiente de concentração de renda (o que o coloca em décimo pior do mundo nesta lista de acordo com dados da CIA).

Tuesday, April 13, 2010

All you need to know about environmental economics

http://www.nytimes.com/2010/04/11/magazine/11Economy-t.html?src=me&ref=homepage

Geografia Econômica: alguns conceitos

Em termos amplos, Geografia Econômica é o ramo da economia que trabalha com a localização produtiva no espaço (Krugman, 1992). É importante destacar que possui um marco analítico rigoroso e que permite a construção, modelagem e testes de hipóteses econômicas relativas a estruturas produtivas em âmbito regional (Davis & Weinstein, 1999). Krugman (1992) inclusive ressalta que estudos em sentido interno das nações é uma maneira eficaz e adequada de abordar o funcionamento da economia internacional praticada pelos agentes envolvidos.

Como é comum às teorias econômicas mais recentes, análises econômico-geográficos têm uma base que foge às perspectivas clássicas de rendimentos constantes de escala e concorrência perfeita (Krugman, 1992), isto porque trabalha com uma realidade de geração de concentração produtiva, isto é, da possibilidade de ganhos em eficiência a partir da dinâmica de localização das atividades econômicas, idéia esta compatível apenas com uma hipótese de rendimentos crescentes de escala*.

Desta forma, em um mundo caracterizado tanto por rendimentos crescentes como por custos de transporte, existem incentivos para a concentração produtiva próxima aos grandes mercados ou às grandes fontes de recursos naturais (Krugman, 1980; 1991), maximizando as possibilidades de ganhos em produtividade, de forma que melhorias em infraestruturas de transporte e a redução de barreiras ao comércio tendem a alterar drasticamente a localização de atividades econômicas em direção a cidades ou regiões centrais (Picard & Zeng, 2005). Em um nível microeconômico Porter (1990) também expõe sua visão sobre a concentração geográfica industrial dizendo que as empresas, assim como cidades ou estados, tendem a se localizar em zonas específicas**.

Por outro lado, Krugman (1992) emite restrições a esta tendência ao explicar que modelos nos quais os custos fixos sejam menos representativos que os de transporte não comportam a idéia de concentração***. Neste sentido, a existência de barreiras tarifárias e não-tarifárias, assim como a maior relevância dos custos de transporte e impossibilidade de realocação perfeita dos fatores trabalho e capital, permite trabalhar com a hipótese de que movimentos de concentração têm maior relevância em âmbito nacional.

Mas há que se considerar que há uma miríade de fatores que jogam papéis importantes na determinação produtiva em termos geográficos e que não estão relacionados somente aos pontos apresentados até aqui. Proximidade espacial estimula processos de aprendizagem coletiva, reduzindo custos de transação, encorajando coordenação entre os agentes (através da mobilidade de capital humano, fluxos de informação em redes formais e informais de atores locais e uma cultura local de confiança baseada em práticas e normas comuns) (Boschma & Lambooy, 1999). E parece ser do interesse das próprias empresas localizarem-se e aproveitar os spillovers que possam existir de outras firmas (Fosfuri & Ronde, 2004). Audretsch e Feldman (1996) ainda propõem que esta tendência ocorre parcialmente em função do nível tecnológico existente na indústria, resultando em que quanto mais importante o papel da tecnologia na produção, maior deverá ser o nível de concentração esperado.

Já Krugman (1992) cita Marshall que desenvolveu uma modelagem a respeito das diferentes razões a favor da concentração geográfica das atividades econômicas:

a) Criação de um mercado conjunto para trabalhadores especializados;
b) Aprovisionamento de fatores concretos necessários ao setor e que não são objeto de comércio; e
c) Technological spillovers.

Estendendo o marco teórico neste sentido, estabelece-se que, ainda que diversas atividades econômicas sejam marcadamente concentradas geograficamente, existe um nível de dispersão que permite predizer que existem forças centrípetas e centrífugas atuando neste processo (Krugman, 1998).

Da mesma forma, a importância de eventos históricos não pode ser desconsiderada em termos analíticos, indicando a existência de path dependence (o que sugere a possibilidade de incluir termos auto-regressivos em uma modelagem econométrica) na geração de clusters produtivos****.

Ellison y Glaeser (1997) apresentam uma interessante análise que indica que ainda que indústrias apresentam de fato características de concentração geográficas, isto parece em muito se dever vantagens naturais dos próprios territórios do que se extrai a importância da existência ou não de recursos fundamentais às atividades produtivas como variável explicativa da localização. Desde este ponto de vista, ainda que a literatura referente a geografia econômica de concentra fortemente em modelos de aglomeração e localização industrial, existe uma hipótese alternativa a ser trabalhada em abordagens endowment-driven, baseadas na disponibilidade de recursos nos territórios e que é desenvolvida dentro de uma lógica mais tradicional de modelos de comércio (Head, Ries & Swenson, 1995).

Ainda que seja intuitivo, é fundamental estabelecer que enquanto produtos manufaturados apresentam características de rendimentos crescentes de escala, produtos agrícolas são produzidos em rendimentos constantes (Picard & Zeng, 2005; Krugman, 1992). Por outro lado, produtos manufaturados têm sua localização em grande parte definida por variáveis endógenas relativas a forças de mercado e produtos agrícolas se localizam de acordo com aspectos exógenos relacionados a características naturais e ambientais (Picard & Zeng, 2005).

Krugman (1992) trabalha com a idéia de alterações repentinas de equilíbrios da localização produtiva em função da alocação da mão-de-obra agrícola. Quando esta atinge um ponto crítico em uma região considerada periférica é previsível que ocorra uma reorganização geográfica das empresas em função da densidade do novo mercado. O exemplo utilizado pelo autor é o do Estado da Califórnia, que passou de uma zona fundamentalmente produtora de commodities para uma região altamente industrializada a partir do final do século XIX.

E só.



Notas:

*Na ausência de economias de escala ao nível de fábrica não haveria qualquer incentivo para a localização produtiva (Krugman, 1998). Isto é bastante intuitivo do ponto de vista econômico: na ausência deste pressuposto uma diversidade de plantas industriais seria capaz de produzir dentro de um mesmo patamar de rendimentos constantes de escala e não haveria motivação lógica em concentrar as atividades, a menos que o mercado consumidor fosse extremamente concentrado geograficamente em uma região apenas (como parece ser o caso chileno em torno da capital Santiago).

** Neste sentido, o índice EG (Ellison-Glaeser) de concentração de uma determinada indústria em relação ao tempo é um dos métodos mais utilizados para mensuração de concentração produtiva em espaços geográficos (Dumais, Ellison & Glaeser, 2002).

*** Maiores custos de transporte aparentam estar associados positivamente com uma menor concentração industrial em termos geográficos (Audretsch & Feldman, 1996).

**** Em uma perspectiva alternativa, Boschma e Lambooy (1999) exploraram aspectos conceituais de Economia Evolutiva (seleção, path dependency, sorte e rendimentos crescentes) abordando temas de geografia econômica.


Referências

Audretsch, D.B., Feldman, M. (1996). R&D spillovers and the geography of innovation and production. American Economic Review, v. 86, pp. 630–640.

Boschma, Ron A. e Lambooy, Jan G. (1999). Evolutionary economics and economic geography. Journal of Evolutionary Economics, v. 9, pp. 411-429.

Davis, Donald R. e Weinstein, David E. (1999). Economic geography and regional production structure: an empirical investigation. European Economic Review, v. 43, pp. 379-407.

Dumais, Guy; Ellison, Glen e Glaeser, Edward L. (2002). Geographic Concentration as a Dynamic Process. The Review of Economics and Statistics, v. 84, n. 2, pp. 193-204.

Ellison, Glen y Glaeser, Edward L. (1997). Geographic Concentration in U.S. Manufacturing Industries: A Dartboard Approach. Journal of Political Economy. V. 105, n. 5, pp. 889-927.

Fosfuri, Andrea y Ronde, Thomas (2004). High-tech clusters, technology spillovers, and trade secret laws. International Journal of Industrial Organization. V. 22, pp. 45-65.

Head, Keith; Ries, John e Swenson, Deborah (1995). Agglomeration benefits and location choice: evidence from Japanese manufacturing investments in the United States. Journal of International Economics, v. 38, PP. 223-247.

Krugman, Paul (1980). Scale Economies, Product Differentiation, and the Pattern of Trade. American Economic Review. V. 70, n. 5, pp. 950-59.

Krugman, Paul (1991). History and Industry Location: The case of the manufacturing belt. AEA Papers and Proceedings. V. 81, n. 2, pp. 80-83.

Krugman, Paul (1992). Geografía y Comercio. Antoni Bosch. Barcelona.

Krugman, Paul (1998). What’s new about the new economic geography?Oxford Review of Economic Policy, v. 14, n. 2, pp. 7-17.

Picard, Pierre M. e Zeng, Dao-Zhi (2005). Agricultural sector and industrial agglomeration. Journal of Development Economics, v. 77, pp; 75-106.

Porter, Michael E. (1990). The Competitive Advantage of Nations. The MacMillan Press, London.

Geografia Econômica em destaque

http://zerohora.clicrbs.com.br/especial/rs/zhdinheiro/19,0,2870776,Walmart-deve-investir-R-100-milhoes-no-RS.html

Processo de localização, proximidade aos grandes mercados, reduzindo custos de transporte e possibilitando ganhos de escala. Já diria Robert Lucas que em um mundo regido por rendimentos não-crescentes de escala, não haveria o menor sentido a geração espontânea de grandes centros urbanos.

Competição Monopolística

De Rodrigo Constantino, diretor do Instituto Liberal:

"— Os preços livres levam à informação real sobre oferta e demanda e garantem o uso eficiente de recursos — ".

Ele expôs isso em uma crítica ao modelo socialista. Eu também sou a favor do modelo de livre mercado, mas essa declaração ignora 40 anos de desenvolvimentos sérios na área de teoria econômica. A começar que os preços não são transmissores perfeitos de informação, longe disso. Para ler mais a respeito, eu tenho um artigo publicado pela Revista de Economia Agrícola do Instituto de Economia Agrícola de São Paulo que discute sobre isso -

http://www.iea.sp.gov.br/out/verTexto.php?codTexto=11802

Por outro lado, grande parte da economia se desenvolve em mercados que não são geridos pela simples interação entre oferta e demanda. É o caso da concorrência monopolística (que decorre em boa parte da capacidade de transmissão de informações - marcas, certificações, publicidade, etc.). A teoria econômica clássica nos diz que, dado um aumento da demanda, há um aumento de preços que leva a um incentivo para a entrada de novos ofertantes, que aumenta a oferta e leva a uma baixa dos preços e assim por diante, estabelecendo-se equilíbrios dentro de uma dinâmica de auto-correção.

Pois bem, competir em concorrência monopolística não funciona assim. Um calçado Nike custa, sei lá, 500 reais. Incentivo para novos ofertantes? Será? Quem terá capacidade de competir no mercado de tênis de 500 reais com o poder da marca Nike? Não compete, existem outros nichos. Concorrência monopolística.

Mas isso é teoria econômica demasiadamente básica para que o nosso Constantino não tenha conhecimento...

Monday, April 12, 2010

Desigualdade de renda


Interessante: a correlação (isto é, variação conjunta) entre PIB (em PPP) e desigualdade de renda é nula (bem, na verdade é -0,0669). Em uma análise gráfica para 134 países se pode perceber que uma grande quantidade de países com um Produto Interno Bruto similar que variam muito em termos de desigualdade de renda (coeficiente de Gini - quanto maior, maior a concentração*).

Estados Unidos (ponto alto) e União Européia (ponto baixo), no extremo direito do gráfico, mostram uma relação similar: o PIB de ambos é muito próximo, mas o Gini é muito melhor na Europa (ponto baixo).

Então esse negócio anos 80 de "fazer o bolo crescer pra depois dividir" é balela. Há que haver desenvolvimento institucional e políticas distributivas e de investimento em educação pra coisa funcionar. Anarcocapitalismo, Sr. Friedman, não me parece adequado (http://pt.wikipedia.org/wiki/Anarcocapitalismo).

Por falar nisso, a posição do Brasil é bem estável em ambos índices. Temos o 11o PIB do mundo e somos o 11o em distribuição de renda (o que é péssimo). Neste segundo estamos ao lado de Bosnia, Bolivia, Haiti e República Central Africana.


Nota: a escala dá uma idéia um pouco distorcida da proximidade dos PIBs, mas é uma figura instrutiva.



* Um Gini de 1, por exemplo, representa o caso no qual um único indivíduo possui toda a renda da nação.

Update: dados obtidos através do CIA World Factbook.

Saturday, April 10, 2010

Bribery

Estava refletindo sobre esta prática americana de tipping, ou se preferir, de dar gorjeta de 20% sobre os serviços que lhes são prestados (táxi, alimentação, etc.). Cheguei um tempo a pensar que se tratava de uma prática com fundo social, de contribuição ao pobre salário destas pessoas que trabalham em "subempregos".

Mas acontece que eu estava enganado. A visão do americano típico é de contribuição a rendimentos melhores, quer dizer, a expectativa de ganhar uma bela gorjeta faz com que o serviço seja melhor prestado. Sem as tips, dizem eles, a qualidade do serviço seria ruim.

Mas bem, então a qualidade do serviço é uma variável dependente da expectativa de receber uma quantia do CONSUMIDOR. Vejo muitas similaridades disso com a prática de bribery, de suborno. As coisas funcionam (e bem) se você passar por cima da coordenação laboral (relação empregador-empregado) e passar um "por fora". É claro que são comportamentos distintos em sua filosofia, mas a lógica de funcionamento me parece bastante similar. Controle de rendimento me parece que deve ser exercido pela lado ofertante e não pelo demandante. Cria-se uma cultura de eficiência condicionada e contribuição compulsória. Tem todas as características de uma falha de mercado. Seja esta solução "cultural" justa ou não, funciona. Mas até onde os fins justificam os meios?

Friday, April 9, 2010

Estabilidade




Olhaí o mérito da estabilidade... Veja bem o gráfico (clique nele para ampliar - feito a partir de dados da Unctad) de fluxos e estoques de investimento estrangeiro direto no Brasil (e dê uma olhada especial no período eleitoral antes do primeiro mandato de Lula - e lembre-se do MEDO).

Played it really well, Mr. President. Ou veremos quando tivermos datos para o período eleitoral que segue.

Update: é bem claro que para o período eleitoral referente ao segundo mandato do Lula NAO HÁ uma queda do fluxo de investimentos. Há que dar esse mérito ao barbudo.

E a Grécia, hein?

Nada do que eu posso dizer é mais emblmeático e bem colocado que isso:

http://www.nytimes.com/2010/04/09/opinion/09krugman.html?hp

Hmmm, talvez o Euro nao tenha sido uma idéia tao boa assim para Grécia, Espanha, Portugal, Estonia, Polonia... E querem meter a Turquia nesse barco aí. Aliás, a Turquia quer se meter neste barco.

Soberania de gestao monetária ainda é importante para blocos de países com estruturas e situaçoes de desenvolvimento econômico distintas, ok?

Thursday, April 8, 2010

Sobre aquilo que nao se pode esquecer

Por um lado estao os otimistas, os que ressaltam os avanços do Brasil e nao veem limites para o crescimento do belo país.

Já por outro lado estao os que preveem um futuro nem tao verde-amarelo-azul.

É uma mera questao de obviedade teórica para saber quem está certo. Mesmo que você ache que na prática a teoria é outra, dificilmente discordará da argumentaçao bastante intuitiva que segue:

Seja a seguinte funçao de produçao uma estimativa da economia brasileira:

Y = f(A,B,C).

Onde Y é o produto econômico, PIB se quiser, B e C sao fatores produtivos determinados aqui como trabalho e capital e A é a infraestrutura do país. Nao preciso explicar o papel de nenhum desses elementos na capacidade de geraçao de riqueza em uma naçao e também nao digo que este é um modelo completo, é apenas uma ilustraçao.

É fundamental estabelecer que é um modelo de rendimentos CONSTANTES de escala para o conjunto de variáveis explicativas (à esquerda da equaçao) e de rendimentos DECRESCENTES de escala para estas mesmas variáveis analisadas isoladamente. Ou seja:

2Y = f(2A,2B,2C) ou simplesmente 2Y = 2f(A;B;C). Dobram os fatores, dobra o produto.

Por outro lado, imagine que dobre o fator trabalho, mas permaneça constanteo fator capital. Chegará um momento em que o excesso de mao-de-obra REDUZIRÁ o rendimento do capital e nao o aumentará. 1 funcionário trabalhando em uma máquina pode retirar apenas 50% do rendimento desta máquina, 5 funcionários farao a máquina render 90%, mas 20 funcionários disputarao espaço e farao com que o rendimento da maquina volte ao patamar atingido com apenas 1 funcionário.

Agora a situaçao do Brasil nao é essa. Temos aumento da mao-de-obra (inclusive qualificada) e uma situaçao favirável de investimento (que se relaciona diretamente com capital), mas a infraestrutura nao segue o mesmo padrao de evoluçao. Nao interessa a falácia do PAC e alguma ou outra melhoria, O BRASIL TEM UMA INFRAESTRUTURA PRECÁRIA. Isso se reflete em escoamento de produçao, aglomeraçoes industriais urbanas em níveis insustentáveis (já que as empresas buscam estar próximas àquelas infraestruturas mais desenvolvidas) e uma série de outros problemas (qualquer ex-estudante de comércio exterior, como eu, sabe as condiçoes dos portos brasileiros e o tal de "custo Brasil").

Entao a conclusao é que o nosso crescimento em trabalho e capital chegará a um ponto no qual nao somente será estancado pela nossa infraestrutura precária, mas é lógico que a partir de um certo ponto inclusive REDUZIRÁ a nossa capacidade produtiva global. Basta que o governo nao faça o que deve fazer, invista errado e chegaremos a esta inflexao da curva produtiva do país, quando nosso produto marginal será nao apenas decrescente como NEGATIVO.

Update: Vim no ônibus pensando a respeito e concluí que meu exemplo de rendimentos decrescentes de escala talvez não tenha ficado claro como poderia: Imagine você (trabalho) no seu trabalho com o seu computador (capital). Agora imagine que sua empresa contrata mais 10 trabalhadores e não compra nenhum computador. 5 desses novos trabalhadores compartilharão do seu computador. Imagino eu que o rendimento global da sua empresa DECRESCERÁ em função da desorganização instaurada. Parece óbvio.

Update: Notícia da Istoé Dinheiro de 2 de abril sobre as evoluções do PAC e lançamento do Pac 2: http://www.istoedinheiro.com.br/noticias/18435_E+DE+DAR+SONO

Wednesday, April 7, 2010

Por que eu sou contra os salários milionários no esporte

Simples, direto. Eu entendo o argumento de que há retorno, que o marketing esportivo avançou a níveis tais e que os jogadores valem o investimento para os clubes. Aceito isto para o caso dos fora-de-série (nem sempre no sentido técnico do esporte), realmente acredito que um Cristiano Ronaldo paga o valor do seu passe e do seu salário com venda de camisetas e outras rendas provenientes de sua imagem.

O problema é que é ele e mais meia dúzia. Mas são esses jogadores que criam uma onda inflacionária que leva atletas sem grande expressão (ou sem expressão alguma) a terem rendimentos mensais na casa dos 3 dígitos. E não é por sua "carreira curta", se perdeu qualquer lógica econômica no pagamento salarial do jogador médio de equipes de elite. Mas eles são importantes no sentido da equipe? Bom, o baiano que trabalha na GM em São Caetano também tem sua importância na montagem dos carros que por aí circulam, ainda assim ganha múltiplas vezes menos que executivos em cargos de decisão (talvez ganhe menos comparativamente do que mereça, mas esse não é meu objetivo de análise aqui).

Então, não, não há sentido nas folhas salariais de organizações esportivas, é meramente uma onda inflacionária irracional do mesmo tipo que causa catástrofes em sistemas econômicos. O mundo esportivo profissional ruma ao colapso. Espero que eu esteja errado.

Retórica

Da reportagem Brasil ocupa o sexto lugar no ranking mundial do empreendedorismo:

"— Não basta abrir o negócio mesmo quando observamos que o mercado está crescendo. É importante para ter competitividade, criar produtos e serviços mais inovadores."

Genial ponto de vista do Sr. Okamoto, Presidente do Sebrae. Genial por nao dizer nada e ainda parecer que faz sentido. Sao de uso comum, especialmente entre administradores de empresas, esses termos vagos que, evidentemente, tem algum significado, mas nao da forma com que sao utilizados.

Uma menina nao muito inteligente que trabalhava no Centro Tecnológico da UFJF alguns anos atrás ao ver a desorganizaçao extrema na minha mesa de trabalho (meramente aparente, eu encontrava tudo em segundos) disse em tom de urgência: Precisamos fazer um 5S na sua mesa!!!!

Ora, amiga, use seu cérebro. 5S representa uma filosofia japonesa de organizaçao, asseio e manutençao do local de trabalho e carrega um grande conteúdo cultural. Limpar minha mesa seria exatamente isso: LIMPEZA, nao 5S (mas provavelmente ela leu diferente nestes best-selling books de como administrar o mundo em 5 passos).

De qualquer maneira, o Sr. Okamoto fala em competitividade e esquece que é um termo bastante amplo, de interpretaçoes distintas dependendo do ambiente. É basicamente a capacidade de competir: e se você acha que se tornar competitivo (ter a capacidade de competir) se baseia em uma técnica unívoca para todos setores e segmentos (mercadológicos e geográficos), escreva um livro sobre isso e armazene bem os seus milhoes.

Logicamente inovaçao é importante.É importante em vários sentidos, mas o Brasil nao é um país inovador em termos empresariais. Pode se culpar uma série de fatores por isso, mas eu nao culpo, acho que seguimos nosso caminho copiando (copiar BEM nao é feio, consulte isso em algum livro-texto de Crescimento Econômico). Mas eu diria que nos falta inovaçao (ao menos de produto) até por um fator cultural: o brasileiro gosta do que é importado, do que o americano gosta, do que o europeu gosta. Logicamente, uma empresa brasileira terá uma dificuldade enorme em entender o mercado destes países, ao passo que empresas destes países o fazem e nos exportam (e eventualmente produzem no nosso país, de acordo com a perspectiva de Ciclo de Vida de Produto do nosso glorioso Raymond Vernon).

Entao está aí, copiar pode tornar uma empresa competitiva, por que nao? Reduzir custos também, nao? E inovar é apenas uma maneira de reduzir custos, acredite.

E o que seria um produto ou serviço "mais" inovador? Seria algo como uma mulher "mais" grávida?

Tuesday, April 6, 2010

Retaliaçao

Me surpreende a posiçao brasileira em adiar a retaliaçao a produtos norteamericanos devido a subsídios à exportaçao de algodao. Me surpreende positivamente, aliás.

Sobretaxas nada mais fariam para o consumidor brasileiro do que ampliar seus custos com aquisiçao de bens incluídos na lista de retaliaçao. Seriam beneficiados produtores brasileiros às expensas da populaçao e, acredite, a economia americana nao entraria em colapso devido a esta medida.

Monday, April 5, 2010

Environmental Sustainability

Especificamente quero abordar o assunto "consumo local". Mais de uma pessoa que trabalha nesta área de economia ambientalmente sustentável (que eu respeito, mas acho que lhes falta consciência das teorias mais básicas) me profetizou as maravilhas do tal "consumo local", uma maneira de disseminar estruturas produtivas (especialmente de alimentos) perto dos centros de consumo, reduzindo gastos de combustível fóssil pelas menores distâncias a serem percorridas e alguns outros argumentos pró-agricultura familiar e coisa que o valha.

Olha, sinto muito, mas isto me parece uma conversa muito chata e com ares de protecionismo comercial (ainda que os defensores da idéia não admitam isso). A participação de commodities agrícolas é mais substancial para nações em desenvolvimento que, em vista de tal proposição tomar lugar, perderiam mercado para seus excedentes produtivos, devendo comercializá-los localmente, o que levaria a uma queda de preço e, nos ensina microeconomia 101, redução da oferta até um novo equilíbrio. Este novo equilíbrio a priori teria efeitos catastróficos em estruturas produtivas agrícolas de países como Brasil e Argentina do ponto de vista econômico. Em situação tal, fazendeiros argentinos, obrigados por determinação comercial a vender seus produtos no mercado interno viram os preços de suas safras cair a tal patamar que se recusaram a abastecer os centros urbanos com alimentos. Resultado? Racionamento de comida.

Mas sustentabilidade está muito de moda e esses "teóricos" se defendem por trás de termos politicamente corretos de um mundo perfeito que eu não viverei para ver.

Sobre esse tal de Totalitarismo Democrático

Em comentário sobre artigo do Wall Street Journal - não encontrei o original - http://noticias.terra.com.br/interna/0,,OI4363164-EI8177,00.html - li que a editora do periódico pede calma com o entusiasmo a respeito do Brasil - o que concordo - e cutuca Lula dizendo que o seu governo não foi responsável por nada e que colhemos as benesses de planos econômicos anteriores.

Ora, concordo que o país vive um relativo bom momento e que creditar isso a políticas recentes seria um erro bobo. Mas a partir de uma piada que fiz, construí minha opinião (já um pouco mais séria): Em se tratando de Lula, NADA é melhor que alguma coisa.

Buenas, há que se creditar na conta do Sr. Presidente uma inovação radical em termos latinoamericanos que é a estabilidade. Não inovar é inovador em termos de política econômica no nosso continente e, considerando-se uma conjuntura positiva, bastante benéfico.

Além disso, e daí o título deste post, atribuir comportamentos nacionais a uma única pessoa é reduzir a análise. É mais, é pensar que uma democracia funciona como um regime totalitarista, como uma ditadura. Muitos norteamericanos têm se manifestado contra o "totalitarismo socialista" do governo Obama e sua reforma de saúde. Pois bem, qual regime totalitarista tem propostas votadas por algo como 500 constituintes de uma bancada?

Pode-se argumentar que ao referir-se ao "governo Lula ou governo fulano" o foco é toda a equipe do presidente. Mas isso carrega uma mensagem liminar simplista. E, além do mais, o corpo de gestão de um governo é muito mais que a equipe do Sr. Presidente. Que o diga Barack e e seus "amigos" republicanos.

Something on Institutions - Reflexões sobre branding

Eu estou longe de me considerar um institucionalista. Não sou afeito a fundamentalismos e acho que muitos dos institucionalistas agem desta forma. Não raramente me vejo bocejando com artigos que atribuem a um poder obscuro das instituições todo o funcionamento do universo econômico.

Por outro lado, instituições SÃO importantes agentes econômicos. Termo amplo este. Pensando bem a respeito, não gosto. Marcas, direitos de propriedade (intelectual inclusive*), órgãos governamentais, calendário, costumes, cultura (outro termo convenientemente - e demasiadamente - amplo), etc. Instituições. Todos os citados e uma infinidade mais.

Enfim, falar em instituições e parar por aí é perder foco, é dizer que o universo é governado pelas forças divinas. Aceitar isso é voltar para a Idade Média. Ir adiante e analisar componentes é iluminação. É a física, a biologia, a medicina. É decompor no melhor sentido cartesiano e, de fato, contribuir. Escrevo aqui algo sobre marcas.

Marcas. Nos cursos de administração (e eu bem sei disso), de marketing e tudo nesse sentido se fala muito em gestão da marca, branding, publicidade e etc. Ótimo, operacionalidades de um "novo mundo" recheado de propaganda, certo? Mais ou menos. Tem algo por trás disso. Algo importante e que as pessoas não pensam muito a respeito (em especial administradores como eu).

Marca não é um advento recente. Não tenho conhecimentos de história que me permitam datar coisa alguma, mas é bastante lógico, vejamos: O que é uma assinatura em uma obra de arte? Marca! É informação. É indicação de procedência, garantia de diversas características (inclusive garantia de saber quem foi o infeliz que te vendeu um lanche ruim).

Neste sentido, marca não é apenas redutor de assimetria informacional, é também apropriação de direitos de mercado, geração de valor e criação de consumidores cativos - concorrência monopolística. Marca altera a estrutura concorrencial do ambiente econômico (assim como uma série de outras variáveis que não analiso neste post). Commodities carecem de marca. São comercializados basicamente em uma lógica de preço estabelecida pela interação entre quantidade ofertada e demandada (um exemplo recente é o caso recente no mercado de soja brasileiro - http://zerohora.clicrbs.com.br/especial/rs/zhdinheiro/19,0,2860843,Preco-da-soja-diminui-e-reduz-rentabilidade.html). Bens definidos com marcas participam de outra lógica. Existe afinidade, conhecimento, expectativa.

Sobre isso escreve George Akerlof (prêmio Nobel em 2001) em seu artigo Market for Lemons, abordando a relevância da difusão de informação em mercados com alto grau de assimetria de informação entre ofertantes e demandantes.

Mas quero ir além. Vou hipotetizar correndo os riscos que isso acarreta. Aguardo críticas.

Marcas (e outros métodos de sinalização) são substitutos para confiança. Sobre isso desenvolvo o post subseqüente, trabalhando alguns desenvolvimentos não publicados para arranjos organizacionais no ambiente agroindustrial. Contudo creio que algumas conclusões podem ser apropriadas para mercados em geral.

Chego a isto por uma inquietação em visita recente à costa leste dos Estados Unidos. Me chamou a atenção a força da prática do uso de branding em praticamente todos setores da economia e a valorização que o público dá a isto. Evidente, há uma redução de incerteza em quase todos aspectos de atuação econômica do indivíduo. Se você gosta do sanduíche X, ótimo, poderás encontrá-lo virtualmente aonde quer que vás. Sabemos que algumas destas redes se espalharam pelo mundo com grande sucesso (McDonalds, Starbucks, FootLocker, etc.).

Até a presente data, confiança permanece como importante variável mercadológica. Contudo, permanece não sendo passível de mensuração direta. Marcas são uma boa aproximação.


*Um grande "inclusive", aliás.