Tuesday, April 13, 2010

Geografia Econômica: alguns conceitos

Em termos amplos, Geografia Econômica é o ramo da economia que trabalha com a localização produtiva no espaço (Krugman, 1992). É importante destacar que possui um marco analítico rigoroso e que permite a construção, modelagem e testes de hipóteses econômicas relativas a estruturas produtivas em âmbito regional (Davis & Weinstein, 1999). Krugman (1992) inclusive ressalta que estudos em sentido interno das nações é uma maneira eficaz e adequada de abordar o funcionamento da economia internacional praticada pelos agentes envolvidos.

Como é comum às teorias econômicas mais recentes, análises econômico-geográficos têm uma base que foge às perspectivas clássicas de rendimentos constantes de escala e concorrência perfeita (Krugman, 1992), isto porque trabalha com uma realidade de geração de concentração produtiva, isto é, da possibilidade de ganhos em eficiência a partir da dinâmica de localização das atividades econômicas, idéia esta compatível apenas com uma hipótese de rendimentos crescentes de escala*.

Desta forma, em um mundo caracterizado tanto por rendimentos crescentes como por custos de transporte, existem incentivos para a concentração produtiva próxima aos grandes mercados ou às grandes fontes de recursos naturais (Krugman, 1980; 1991), maximizando as possibilidades de ganhos em produtividade, de forma que melhorias em infraestruturas de transporte e a redução de barreiras ao comércio tendem a alterar drasticamente a localização de atividades econômicas em direção a cidades ou regiões centrais (Picard & Zeng, 2005). Em um nível microeconômico Porter (1990) também expõe sua visão sobre a concentração geográfica industrial dizendo que as empresas, assim como cidades ou estados, tendem a se localizar em zonas específicas**.

Por outro lado, Krugman (1992) emite restrições a esta tendência ao explicar que modelos nos quais os custos fixos sejam menos representativos que os de transporte não comportam a idéia de concentração***. Neste sentido, a existência de barreiras tarifárias e não-tarifárias, assim como a maior relevância dos custos de transporte e impossibilidade de realocação perfeita dos fatores trabalho e capital, permite trabalhar com a hipótese de que movimentos de concentração têm maior relevância em âmbito nacional.

Mas há que se considerar que há uma miríade de fatores que jogam papéis importantes na determinação produtiva em termos geográficos e que não estão relacionados somente aos pontos apresentados até aqui. Proximidade espacial estimula processos de aprendizagem coletiva, reduzindo custos de transação, encorajando coordenação entre os agentes (através da mobilidade de capital humano, fluxos de informação em redes formais e informais de atores locais e uma cultura local de confiança baseada em práticas e normas comuns) (Boschma & Lambooy, 1999). E parece ser do interesse das próprias empresas localizarem-se e aproveitar os spillovers que possam existir de outras firmas (Fosfuri & Ronde, 2004). Audretsch e Feldman (1996) ainda propõem que esta tendência ocorre parcialmente em função do nível tecnológico existente na indústria, resultando em que quanto mais importante o papel da tecnologia na produção, maior deverá ser o nível de concentração esperado.

Já Krugman (1992) cita Marshall que desenvolveu uma modelagem a respeito das diferentes razões a favor da concentração geográfica das atividades econômicas:

a) Criação de um mercado conjunto para trabalhadores especializados;
b) Aprovisionamento de fatores concretos necessários ao setor e que não são objeto de comércio; e
c) Technological spillovers.

Estendendo o marco teórico neste sentido, estabelece-se que, ainda que diversas atividades econômicas sejam marcadamente concentradas geograficamente, existe um nível de dispersão que permite predizer que existem forças centrípetas e centrífugas atuando neste processo (Krugman, 1998).

Da mesma forma, a importância de eventos históricos não pode ser desconsiderada em termos analíticos, indicando a existência de path dependence (o que sugere a possibilidade de incluir termos auto-regressivos em uma modelagem econométrica) na geração de clusters produtivos****.

Ellison y Glaeser (1997) apresentam uma interessante análise que indica que ainda que indústrias apresentam de fato características de concentração geográficas, isto parece em muito se dever vantagens naturais dos próprios territórios do que se extrai a importância da existência ou não de recursos fundamentais às atividades produtivas como variável explicativa da localização. Desde este ponto de vista, ainda que a literatura referente a geografia econômica de concentra fortemente em modelos de aglomeração e localização industrial, existe uma hipótese alternativa a ser trabalhada em abordagens endowment-driven, baseadas na disponibilidade de recursos nos territórios e que é desenvolvida dentro de uma lógica mais tradicional de modelos de comércio (Head, Ries & Swenson, 1995).

Ainda que seja intuitivo, é fundamental estabelecer que enquanto produtos manufaturados apresentam características de rendimentos crescentes de escala, produtos agrícolas são produzidos em rendimentos constantes (Picard & Zeng, 2005; Krugman, 1992). Por outro lado, produtos manufaturados têm sua localização em grande parte definida por variáveis endógenas relativas a forças de mercado e produtos agrícolas se localizam de acordo com aspectos exógenos relacionados a características naturais e ambientais (Picard & Zeng, 2005).

Krugman (1992) trabalha com a idéia de alterações repentinas de equilíbrios da localização produtiva em função da alocação da mão-de-obra agrícola. Quando esta atinge um ponto crítico em uma região considerada periférica é previsível que ocorra uma reorganização geográfica das empresas em função da densidade do novo mercado. O exemplo utilizado pelo autor é o do Estado da Califórnia, que passou de uma zona fundamentalmente produtora de commodities para uma região altamente industrializada a partir do final do século XIX.

E só.



Notas:

*Na ausência de economias de escala ao nível de fábrica não haveria qualquer incentivo para a localização produtiva (Krugman, 1998). Isto é bastante intuitivo do ponto de vista econômico: na ausência deste pressuposto uma diversidade de plantas industriais seria capaz de produzir dentro de um mesmo patamar de rendimentos constantes de escala e não haveria motivação lógica em concentrar as atividades, a menos que o mercado consumidor fosse extremamente concentrado geograficamente em uma região apenas (como parece ser o caso chileno em torno da capital Santiago).

** Neste sentido, o índice EG (Ellison-Glaeser) de concentração de uma determinada indústria em relação ao tempo é um dos métodos mais utilizados para mensuração de concentração produtiva em espaços geográficos (Dumais, Ellison & Glaeser, 2002).

*** Maiores custos de transporte aparentam estar associados positivamente com uma menor concentração industrial em termos geográficos (Audretsch & Feldman, 1996).

**** Em uma perspectiva alternativa, Boschma e Lambooy (1999) exploraram aspectos conceituais de Economia Evolutiva (seleção, path dependency, sorte e rendimentos crescentes) abordando temas de geografia econômica.


Referências

Audretsch, D.B., Feldman, M. (1996). R&D spillovers and the geography of innovation and production. American Economic Review, v. 86, pp. 630–640.

Boschma, Ron A. e Lambooy, Jan G. (1999). Evolutionary economics and economic geography. Journal of Evolutionary Economics, v. 9, pp. 411-429.

Davis, Donald R. e Weinstein, David E. (1999). Economic geography and regional production structure: an empirical investigation. European Economic Review, v. 43, pp. 379-407.

Dumais, Guy; Ellison, Glen e Glaeser, Edward L. (2002). Geographic Concentration as a Dynamic Process. The Review of Economics and Statistics, v. 84, n. 2, pp. 193-204.

Ellison, Glen y Glaeser, Edward L. (1997). Geographic Concentration in U.S. Manufacturing Industries: A Dartboard Approach. Journal of Political Economy. V. 105, n. 5, pp. 889-927.

Fosfuri, Andrea y Ronde, Thomas (2004). High-tech clusters, technology spillovers, and trade secret laws. International Journal of Industrial Organization. V. 22, pp. 45-65.

Head, Keith; Ries, John e Swenson, Deborah (1995). Agglomeration benefits and location choice: evidence from Japanese manufacturing investments in the United States. Journal of International Economics, v. 38, PP. 223-247.

Krugman, Paul (1980). Scale Economies, Product Differentiation, and the Pattern of Trade. American Economic Review. V. 70, n. 5, pp. 950-59.

Krugman, Paul (1991). History and Industry Location: The case of the manufacturing belt. AEA Papers and Proceedings. V. 81, n. 2, pp. 80-83.

Krugman, Paul (1992). Geografía y Comercio. Antoni Bosch. Barcelona.

Krugman, Paul (1998). What’s new about the new economic geography?Oxford Review of Economic Policy, v. 14, n. 2, pp. 7-17.

Picard, Pierre M. e Zeng, Dao-Zhi (2005). Agricultural sector and industrial agglomeration. Journal of Development Economics, v. 77, pp; 75-106.

Porter, Michael E. (1990). The Competitive Advantage of Nations. The MacMillan Press, London.

2 comments:

  1. Grande Bruno,

    Brow, minhas leituras foram realizadas. Contudo, as críticas não foram apresentadas. Resultado: textos muito bem escritos e análise comprometida (da minha parte, essa última, né?!). Teu futuro não é óliú, mas será sucesso! E tenho dito! Abração, Debus...

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  2. Nêgo, tenho muito que estudar e suar a camisa pra chegar no teu nível. Me avisa quando vais defender a tua tese!

    Abraçote

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